15 de novembro de 2011

Regatões levam mercadoria e recados para moradores da floresta

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Estima-se que os mascates disputem um mercado de 6 milhões de “fregueses” nas regiões ribeirinhas e de difícil acesso da Amazônia

Abdoral Cardoso

Regatões fazem longas viagens para levar artigos de primeira necessidade para os ribeirinhos - Foto Abdoral Cardoso

O barco “Comandante Gama”, com capacidade para 20 toneladas de calado e ancorado há uma semana na cidade de Marechal Thaumaturgo, região acriana do Vale do Juruá, fronteira com o Peru, é um dos 10.000 regatões que singram os rios da Amazônia.

O dono da embarcação, uma espécie de mini shopping flutuante, vendeu parte do estoque no último dia 9 de novembro, e se preparava para iniciar nova viagem pelos rios da microrregião.

Nas prateleiras repletas de sandálias, tarrafas, utensílios de cozinha e mesa, além de outras mercadorias e bens de consumo, os ingredientes do novo estilo de concorrência para enfrentar os lojistas.

Estima-se que os mascates disputem um mercado de 6 milhões de “fregueses” nas regiões ribeirinhas e de difícil acesso da Amazônia, onde esse tipo de barco realiza em média apenas cinco viagens por ano.

Há 400 anos, aproximadamente, essas embarcações de baixo calado e que sobem e descem os rios e lagos da região abarrotadas de todos os tipos de mercadorias e bens de consumo industrializados, usam como moeda a troca de mercadorias por produtos regionais.

A informalidade das operações de crédito é a principal característica desse tipo de comércio. Quando sobem um rio, por exemplo, vão fazendo fiado em muitos dos negócios. Na descida, depois que o dono da bodega teve tempo de passar adiante parte dos produtos para os fregueses, recebem o pagamento. Daí o ditado popular entre os intermediários: “Na subida chegou patrão, na descida chegou ladrão”.

No passado, os donos dos chamados “batelões” eram acusados de práticas escravagistas, explorando principalmente mão de obra quilombola e indígena.

Lojas flutuantes atravessam os rios da Amazônia - Foto Abdoral Cardoso

O folclorista Luís da Câmara Cascudo definiu o regatão, no Dicionário do Folclore Brasileiro como: “Traficante do extremo norte, vendendo tudo numa barca que é casa, armazém e escritório, subindo e descendo rios do Pará e Amazonas, com maior ou menor escrúpulo”.

Diante da pergunta se humanos também faziam parte das negociações, o dono do “Comandante Gama” desconversou e em tom firme disse: “a versão de tráfico de pessoas humanas e trabalho forçado é coisa que não existe por aqui”.

Nos rios do interior do Acre, as viagens entre uma localidade e outra duram cerca de 20 dias. O preço da mercadoria custa três vezes mais e a explicação é de que, invariavelmente, compra-se o litro da gasolina e do óleo a R$ 5,00 no período das cheias, no entanto durante o chamado “verão amazônico” – agosto a outubro – o valor dobra.

Outra agravante: a maioria dos rios da região fica com o leito praticamente apartado, com grandes praias e o surgimento de bancos de areia que obstruem os canais fluviais.

Um comerciante de Marechal Thaumaturgo contou que já chegou a demorar 13 dias numaviagem entre Cruzeiro Sul e Marechal Thaumaturgo. Em situação normal o mesmo percurso é feito em cerca de 7 horas.

O professor doutor da Fundação Universidade do Amazonas, Walmir de Albuquerque Barbosa

Jornalista Abdoral Cardoso durante viagem no interior do Estado do Acre

registrou em sua dissertação de mestrado – “Regatão e suas relações de comunicação na Amazônia” – que esse meio exerceu importante papel no campo da comunicação informal como canal de veiculação de mensagem interpessoal entre os grandes centros urbanos e as comunidades mais isoladas da Amazônia.

Visite o site do Abdoral Cardoso

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