13 de agosto de 2016

Pequeno empresário produz doces com frutas regionais da Amazônia

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Uasca Oliveira lamenta o grande desperdício de toneladas de frutas com sabores inigualáveis que apodrecem por falta de uma política pública voltada para o seu aproveitamento.

Uasca Oliveira lamenta as dificuldades de logística e a burocracia que impedem o aproveitamento das frutas regionais

Uasca Oliveira lamenta as dificuldades de logística e a burocracia que impedem o aproveitamento das frutas regionais

Autor: Ana Aranda

Uasca de Oliveira Albuquerque, 34 anos, nasceu em Porto Velho, mas foi em Curitiba, no Paraná, onde estudava Geografia e trabalhava no setor de transportes, que percebeu o grande potencial das frutas regionais de Rondônia no mercado consumidor. O insight aconteceu ao presenciar a cena de uma moça curitibana que perguntou como se comia cupuaçu. Percebeu, então, que as gôndolas dos supermercados não ofereciam os doces sabores das frutas da sua terra natal e passou a trabalhar com o objetivo de atender a esta demanda. Para isto, há 11 anos vem encarando uma jornada solitária, cheia de percalços – onde se destacam a burocracia e a falta de matéria prima e de informação – e depois de muita luta já tem vários produtos prontos para serem comercializados, mas ele continua explorando o grande potencial da matéria prima, pesquisando e experimentando novas receitas de doces de cupuaçu, araçá-boi, tucumã, pupunha, bacuri, bacaba, patuá, camu-camu e outras riquezas generosamente oferecidas pela floresta amazônica.
Apesar das dificuldades, Uasca vem conseguindo colocar o seu produto no mercado. Hoje ele produz entre 400 a 500 caixas de doces, que são vendidas em lojas de pequeno porte de Rondônia e Curitiba. “A produção variada de doces de castanha, araçá-boi, cupuaçu, açaí e outras frutas é sucesso garantido, inclusive no mercado externo, onde já consegui colocar estes produtos”, relata Uasca.

As frutas são encontradas em abundância em regiões diferentes. O distrito de Calama, por exemplo, tem muita castanha, inclusive a sapucaia, cujos ouriços ele aproveita para embalar os doces; no distrito de Nova Califórnia, é encontrado o araçá-boi; no Baixo-Madeira, tem muito açaí, a região de Porto Velho é rica em cupuaçu e assim por diante.
Para Uasca, o mais difícil da jornada “é fazer as coisas sozinho”, mas ele diz que não desiste do objetivo, tendo em vista o grande potencial que as frutas regionais oferecem, já que são baratas, existem em abundância e têm sabores incomparáveis com grande aceitação dos consumidores.

Além de frutos, as árvores fornecem matéria prima para embalagens, como o ouriço da castanha e a tala de buriti, utilizado para fazer caixinhas

Além de frutos, as árvores fornecem matéria prima para embalagens, como o ouriço da castanha e a tala de buriti, utilizado para fazer caixinhas

Cupulate

O empreendedor cita, por exemplo, o grande potencial comercial do cupulate, uma substância extraída da semente do cupuaçu similar ao chocolate e à manteiga derivado do cacau. “Uma tonelada do caroço da cupuaçu [que quase sempre é descartado como lixo] pode produzir até 145 quilos de cupulate em pó e 165 quilos de manteiga”, informa.

“O cupulate é um similar do chocolate extraído do cacau com a vantagem de não conter a teobromina, substância que afeta as pessoas alérgicas ao chocolate. Já a manteiga de cupuaçu, mais barata que a do cacau, é largamente utilizada pela indústria de alimentos e também de cosméticos, por se tratar de um poderoso hidratante”, segundo o empreendedor.
Na busca da valorização das frutas regionais, Uasca idealiza novos produtos, como o leite de castanha, barrinhas de cereais, pirulitos, geleias e doces em barra, entre outros. Atualmente, está empenhado na compra de equipamentos para fazer uma produção semi-industrial, sem perder o toque artesanal. Ele acredita que se outros empreendedores também investissem na industrialização das frutas regionais tudo ficaria mais fácil e Rondônia poderia capitalizar uma grande riqueza oferecida pela natureza, que literalmente está indo para o lixo.

Empenhado em potencializar pequenos negócios como o de Uasca, o Simpi (Sindicato da Micro e Pequena Indústria) de Rondônia está facilitando a venda de produtos regionais com a inclusão na Internet por meio do programa “Com a Cara na Net”. “Tradicionalmente, o comércio puxa a indústria. Quando se cria o mercado, naturalmente cresce a produção”, considera o presidente do Simpi, Leonardo Sobral.

A região amazônica oferece uma grande variedade de ftutos exóticos e sabores inigualáveis

A região amazônica oferece uma grande variedade de ftutos exóticos e sabores inigualáveis

Empreendedor aos nove anos

Uasca conta que a sua primeira experiência como empreendedor ocorreu quando ele tinha nove anos e passou a vender pirulitos para comprar uma bicicleta, a conselho da mãe. Com uma receita tirada de uma revista, 5 quilos de açúcar, uma botija de gás cedida pela avó e duas tábuas de pirulito confeccionadas pelo irmão, que é marceneiro, conseguiu juntar o suficiente para comprar o veículo. Só bem mais tarde passou a apostar novamente nos doces, desta vez aproveitando o rico potencial oferecido pela floresta amazônica.

Para fabricar doces com as frutas regionais, o empreendedor iniciou uma longa jornada em busca de informações sobre o assunto. Para isso, percorreu órgãos públicos como Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Emater (Empresa Estadual de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Rondônia), Ceplac (Comissão Executiva do Plano de Lavoura Cacaueira), Sebrae (Serviço Brasileiro da Apoio às Micro e Pequenas Empresas), entre outros. Passou, então, a trabalhar com o que cada órgão tinha a oferecer.
Paralelamente, foi a campo para buscar os fornecedores de matéria prima e aí se deparou com o grande desperdício de frutas que ocorre na região, por falta de logística e também de experiência comercial dos pequenos agricultores, que detém esta riqueza, mas não têm como escoar a produção. Por causa da falta de mercado e de estradas e de outros percalços, fica mais barato deixar as frutas apodrecerem do que encaminhá-las para o mercado consumidor.

Vídeo de divulgação do Origens da Amazônia

Experimentação e receitas

Outra etapa do trabalho de Uasca é a experimentação e para isto ele passou a fazer cursos e a testar receitas em uma cozinha montada no distrito de Jacy-Paraná, a 100 quilômetros de Porto Velho, onde ele esperava utilizar as frutas da região, mas já está se preparando para sair do local, onde as fruteiras deixaram de produzir com o aumento do volume de água no subsolo, em decorrência da construção das hidrelétricas do Madeira.

A compra das frutas regionais é feita em diversas regiões do Estado, mapeadas com informações sobre o potencial de cada região e um calendários de safras fornecido pela Ceplac, entre outras informações. Com este mapa improvisado, Uasca percorre as linhas e estradas disponíveis e faz o agendamento das compras. Ele afirma que as aquisições são dificultadas pela falta de experiência dos pequenos proprietários na comercialização dos produtos. Como não há uma política pública voltada para o setor, também não existe uma cadeia de produção. A tabela de preços é informal, baseada na oferta e na procura, o que provoca insegurança das duas partes. “Eles [os fornecedores] não confiam em mim e eu também não confio neles”, lamenta.
Uasca destaca projetos como o da Embrapa, que produziu uma espécie de cupuaçu imune à vassoura de bruxa e é capaz de uma produção maior do que as árvores nativas. Ele também destaca a ajuda encontrada no Sebrae, “onde há um grande número de profissionais de diversas páreas, que orientam na escolha de embalagens, conservantes e outros insumos”.

Burocracia

O empreendedor destaca a burocracia como o maior problema enfrentado para a produção e venda dos doces, mas, aos poucos, diz que vem conseguindo vencer entraves como as exigências da Vigilância Sanitária. Também já conseguiu acesso aos códigos de barra. Recentemente, contratou uma nutricionista para proceder a análise dos produtos. Com criatividade, inventou uma embalagem feita com talo de buriti, muito mais barata, bonita e adequada do que as caixinhas de papel que chegou a comprar no Paraná, por um preço incompatível com as vendas. Apesar das dificuldades, o jovem empreendedor continua lutando e confiando no negócio, tendo em vista a grande aceitação do produto e a abundância da matéria prima oferecida pela floresta.

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