8 de março de 2015

Para que mesmo mais mulheres na política?

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*Mara Paraguassu

É inacreditável, mas o Brasil continua em constrangedora posição entre os países das Américas monitorados a cada eleição para se acompanhar a composição dos legislativos, sejam eles bicamerais ou não. A baixa representação feminina na Câmara dos Deputados e Senado Federal é tão vergonhosa e alicerçada em contundente machismo que a Organização das Nações Unidas (ONU) projeta serem necessários 50 anos para países como o nosso conquistarem equidade na política.

A representação de mulheres nos parlamentos da Nicarágua (42,4%), Equador (41,6%) e Argentina (36,6%) demonstra claramente o quanto a cultura da igualdade é algo distante da nossa práxis política. Iniciamos a atual legislatura (2015-2019) com 51 deputadas do total de 513 assentos, um percentual de 9,9%, e 11 senadoras do total de 81, o que significa apenas 13,6% da composição.

Não chegamos perto nem da média de pouco mais de 20% de integrantes mulheres considerando-se o parlamento de 189 países, de todos os continentes, pesquisados pela União Interparlamentar, entidade sediada na Suíça.

Estes números não diferem substancialmente dos que saíram das urnas em eleições anteriores. A desigualdade no parlamento brasileiro é crônica, longe de permitir qualquer comemoração. E com a avaliação um tanto desanimadora da ONU, o que será necessário para reverter a situação?

É estimulante uma democracia representativa que exclui as mulheres, 51,5% da população, sem se dar conta de que a desigualdade perpetua um sistema político-eleitoral totalmente corrompido, em que o poder econômico comanda as regras e elege os que a ele tem acesso, tempo e experiência?

Evidente que não se trata de eleger mulheres porque são mulheres. Critérios outros, igualmente exigidos dos homens, que podem sinalizar uma representação parlamentar adequada e competente, estão à frente dessa escolha na hora do voto.

Entretanto, possibilitar a participação de mais mulheres no processo eleitoral, mulheres dispostas a representar politicamente segmento que é maioria da população, oferecendo voz às crescentes insatisfações que habitam o universo feminino e familiar, é algo que deve importar à sociedade.

É da conta de partidos políticos, que infelizmente abdicaram de qualquer vontade em liderar processos de transformação da democracia representativa brasileira. Agem como associações que se interessam somente pela disputa eleitoral, abrindo mão de conscientizar suas bases na perspectiva de sua inclusão na cidadania.

A duras penas as mulheres garantiram direitos políticos, puderam votar e ser votadas. Não tem sido nada fácil: durante 37 anos, de 1945 a 1982, a representação feminina na Câmara dos Deputados esteve abaixo de 2%. É unânime na literatura que a lenta inclusão das mulheres na política resulta do baixo valor dado à igualdade em nossa cultura, do machismo e da falta de condições para a competição eleitoral.

Fazem muita falta nos dias de hoje parlamentares como os da primeira Constituinte republicana, de 1891, quando o direito ao voto à mulher foi vigorosamente debatido, ou quando a lei de cotas foi instituída na década de 90. De certo apoiariam as propostas da bancada feminina de contar com fatia do Fundo Partidário e reserva de 30% das cadeiras do parlamento.

Afinal, para que mesmo mais mulheres na política? Imprimir o valor da igualdade, permitir distintas visões de mundo no âmbito do agir político e fortalecer o exercício da democracia justificam esse ideal.

Para alcança-lo, a democracia representativa brasileira, perigosamente fora da curva, tem de rever costumes e o arcabouço político-institucional que a sustenta.

*É jornalista

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