25 de junho de 2014

Morre Dionísio Shockness – “O velho maquinista foi embora”

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Descendente dos trabalhadores barbadianos da Madeira-Mamoré, seu Dió trabalhou a vida toda no complexo ferroviário

Ana Aranda

Dionísio Shockness trabalhou a vida inteira na Madeira-Mamoré - foto acervo de família

Descendente dos trabalhadores da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré proveniente das ilhas do Caribe, o ex-ferroviário Dionísio Shockness morreu na noite de terça-feira (24/06) aos 92 anos. “Só neste ano, já morreram cinco ex-ferroviários da Madeira-Mamoré”, informa o museólogo Antônio Ocampo, lamentando o passamento do “seu Dió”. Diferente do ocorrido com outros ex-ferroviários, desta vez não deu para fazer a homenagem sempre emocionante do toque da sirene da ferrovia na passagem do féretro em direção ao cemitério. A velha sirene está calada porque a praça da antiga estação não tem energia elétrica. A fiação elétrica foi roubada e as locomotivas não funcionam. A situação de abandono decorre do avanço do Madeira, que este ano invadiu a cidade e fez estragos consideráveis no acervo. Os prejuízos são imensos e a lerdeza do poder público está retardando o socorro necessário, que se faz urgente, para salvar um dos patrimônios históricos e culturais mais importante de Porto Velho. Batalhador incansável pela recuperação da Madeira-Mamoré, seu Dió deve ter sentido a falta da sirene na sua despedida de Porto Velho.

O corpo de Dionísio Shockness foi velado na Primeira Igreja Batista de Porto Velho, que a sua família ajudou a criar, juntamente com outros moradores da época, há mais de cem anos. Seu Dionísio foi lembrado com carinho pelos filhos e amigos: A paixão pelo Flamengo, a religiosidade compenetrada, a amizade dos conhecidos. Bubu Johnson, 62 anos – filho de Norman e Elvira Johnson, amigos de muitas datas do seu Dió e sua esposa, dona Sivyll Winnie – lembra que ele trazia chicletes para a criançada das viagens de trem feitas a Guajará. Naquela época, um chiclete era novidade na pequena Porto Velho, onde só se chegava pelo rio Madeira, de avião ou pelo trem da Madeira-Mamoré, com ligação para a fronteira da Bolívia.

Na sua despedida do amigo, Elvestre Johnson, 74 anos, cunhou a frase que está no título desta matéria: “O velho maquinista foi embora”. Seu Dió trabalhou a vida inteira no complexo ferroviário, onde exerceu diversas funções. O seu pai, Charles Nathaniel Shockness, foi contratado pela empresa construtora da Madeira-Mamoré, em 1910, para trabalhar na construção da lendária ferrovia. Charles fazia parte de um importante e numeroso grupo de trabalhadores trazidos das ilhas do Caribe para as obras da ferrovia. Com a experiência adquirida na construção do Canal da Mancha, fizeram um trabalho fundamental para a concretização da obra, que ficou famosa pelas grandes dificuldades encontradas na sua construção.

Família Shockness na vila Candelária - Foto acervo de família

Naquela época, início do Século XX, a viagem para trabalhar na longínqua floresta só teve bilhete de ida para a maior parte daqueles aventureiros que deixaram a pátria, impulsionados pelas dificuldades econômicas enfrentadas no Caribe, provocadas pela falta de preço da batata doce no mercado internacional. O produto caribenho, usado para a fabricação de açúcar, perdia espaço para a batata produzida na Europa e o jeito era migrar.

A comunidade barbadiana formada pelos descendentes dos antigos trabalhadores hoje está integrada à sociedade rondoniense – nos municípios de Porto Velho e Guajará-Mirim e distritos formados ao longo da ferrovia. Muitos se dedicaram ao magistério, além de outras funções. Em casa, falam a língua inglesa trazida pelos antepassados, com o sotaque, os termos e as características do inglês que era falado há cerca de cem anos nas ilhas do Caribe. Como outros trabalhadores que migraram para Rondônia, muito contribuíram para a construção de Porto Velho, onde se misturam sotaques, costumes e tradições de pessoas provenientes de todos os rincões brasileiros e de outros países.

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