6 de novembro de 2010

Jornalista que assina coluna mais antiga da Capital relembra dos bons tempos

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Ana Aranda

Em 1967 o jornalista Ciro Pinheiro chegou em Porto Velho para tentar uma nova vida. Deixava para trás a cidade de Fortaleza, onde cumpria uma rotina estafante, como jornalista, bancário e estudante. A convite do primo, Antônio Pinheiro, trocou a cidade praieira pela Amazônia. Ciro desembarcou no Aeroporto de Porto Velho (hoje Aeroporto Internacional governador Jorge Teixeira) e aguardou na sombra formada pelas asas do Hirondele da empresa Paraense pelo único taxi da cidade, um Aero Willis, que o levaria ao centro de Porto Velho. “O aeroporto ainda não havia sido asfaltado. Era todo encascalhado”, lembra o jornalista

Quando se identificou como sendo de Fortaleza, pelo sobrenome, o motorista de taxi já adivinhou para onde ele ia. “Já sei. Vai para a casa do Pinheiro”, disse ele. “A cidade era tão pequena que todo o mundo conhecia a vida de todo o mundo”, lembra

Na época, além dos aviões, o único aceso a Porto Velho era pelo Rio Madeira. A cidade era constituída pelos bairros Caiari, Areal, Arigolândia, Mocambo e Triângulo . “Onde hoje fica o Hotel Vila Rica, na Carlos Gomes, na época ficava a estação de rádio da Cruzeiro do Sul (empresa aérea), e para a gente chegar lá tinha que passar por um pequeno caminho que existia onde hoje fica a avenida Pinheiro Machado”, relata Ciro.

O jornalista trouxera com ele uma carta de apresentação do diretor do jornal onde atuava em Fortaleza, para o diretor do Alto Madeira, Euro Tourinho. Os dois jornais pertenciam à rede dos Diários Associados, do jornalista Assis Chateaubriand. “Acabei nem apresentando a carta e fui admitido na mesma hora”, conta Ciro, que até hoje faz uma coluna social no mesmo jornal.

Apesar da cidade ser bastante pequena na época já comportava dois jornais diários. Além do Alto Madeira, da família Tourinho, havia também o “Guaporé”, dirigido por Emanuel Pontes Pinto. “Fui trabalhar com o João Tavares, Ary de Macedo, Vinicius Danin e o editorialista Rui Cidade, que foi embora de Rondônia”, conta o jornalista.

Engano na delegacia

Ciro começou no Alto Madeira escrevendo artigos para a capa do jornal. Depois passou a produzir uma coluna ilustrada com uma fotografia. As fotos eram reproduzidas através de clichês, que primeiramente eram produzidas em Manaus e posteriormente em Porto Velho.

A ilustração da coluna valeu um bom susto ao jornalista. Ele conta que um dia estava no Alto Madeira, que na época funcionava em frente à praça Jonathas Pedrosa, quando chegou o jeep da polícia com um convite para que se apresentasse na delegacia. No órgão, uma jovem chorava muito e o delegado Melo relatou que ela o acusava de lhe “fazer mal”. A situação foi esclarecida quando a jovem disse, chorando, que o malfeitor, no caso, não se tratava de Ciro. “Mas você não disse que era o homem do retratinho (da coluna)?” Para alívio do jornalista ficou esclarecido que o acusado era outro homem que também constava da coleção de clichês do jornal.

Colunista por acaso

A carreira de colunista social começou por acaso. O diretor do matutino, Euro Tourinho, era o “dono” da coluna, assinada com o pseudônimo de “Eurly”, nome da filha do diretor. Primeiramente Tourinho pediu a colaboração do Ciro para escrever a coluna durante as suas férias. Com o tempo, deixou tudo nas mãos do jornalista. Até que um dia resolveu repassar de vez o trabalho. “Sabe de uma coisa. Fique com a coluna, reformule e coloque o seu nome”, determinou o diretor do jornal. “Isto eu já fazia há quase um ano”, conta Ciro.

O jornalista começou a carreira em Urubutama, no interior do Ceará, onde mantinha um jornal semanário com um amigo. Trabalhou também em um dos mais importantes jornais de Fortaleza, o “Correio do Ceará”, e foi um dos criadores da “Associação Cearense dos Jornalistas do Interior”. Com esta bagagem profissional, achava que “não tinha jeito” para colunista social. “Você tem jeito sim”, insistiu Tourinho. Ele acabou aceitando a coluna, a mais antiga dos jornais de Porto Velho, que escreve até hoje no Alto Madeira.

Vida de colunista

Porto Velho era uma cidade pacata na década de 60, mas muito festeira. “Eu não passava uma noite em casa”, conta Ciro. Além dele, a Lindomar Soares, trabalhava como colunista social no “Guaporé”.

Na época, além das festas em residências, os clubes eram pontos de encontro obrigatório. Havia o Bancrévea, ligado ao Banco da Amazônia (Basa), que desempenhava um importante papel para a economia do então Território Federal.

O Bancrévea era o clube dos categas – altos funcionários, políticos e empresários. Ficava localizado na esquina da Carlos Gomes com Campos Sales, onde hoje funciona o “Colégio Classe A”. Ciro conta uma história que retrata bem o zelo da diretoria do clube para barrar a entrada de pessoas que não fizessem parte dos associados do clube. Fazia poucos dias que ele estava na cidade e ainda não era conhecido. Resolveu espiar da calçada uma festa que era realizada no clube. Como começara a chover ele se dirigiu aos diretores do clube, Josias Araújo e Reginaldo Mendes (já falecidos), que ficavam na porta, controlando a entrada, pedindo para se abrigar perto do prédio para continuar assistindo a festa. “Não teve jeito. Eles preferiam me ver pelas costas”, conta Ciro. O jornalista disse que então “profetizou” que as coisas iriam mudar. “Um dia vocês ainda vão me convidar para frequentar o Bancrévea”, disse aos diretores. Um ano depois, ele se tornou “diretor de divulgação” do clube.

Com a implantação do 5º BEC, em 1967, Porto Velho ganhou o “Clube dos Oficiais”, também voltado para a elite. Porto Velho também contava com a Varanda Tropical, do Porto Velho Hotel, que abrigava pessoas que vinham a Porto Velho a trabalho ou a convite do governo do ex-Território Federal. Também era bastante frequentada a boate do Joá, de propriedade a empresária Nilce Guimarães, de família tradicional da Capital.

Além do Bancrévea, havia o Ferroviário, frequentado pelos funcionários da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, que ainda hoje está em funcionamento no início da Sete de Setembro. O pessoal da classe média frequentava o Danúbio Azul Bailante Clube, na esquina da Carlos Gomes com a Tenreiro Aranha, onde hoje funciona uma galeria de lojas. Havia ainda o Botafogo, na avenida Jorge Teixeira.

Nas proximidades da sede do Tribunal Regional do Trabalho, no Mocambo, funcionava o “Clube Imperial”, cujo proprietário e presidente era um descendente de barbadianos conhecido como “Alumínio”. Este clube era frequentado pelos negros, cuja entrada era proibida no Bancrévea, segundo Ciro.

Governador expulsa garota de programa

Nomeados pelo Governo Federal, os governadores do ex-Território eram nomeados pelo Presidente da República. Durante o regime militar eram todos coronéis. Como a cidade era pequena, havia uma proximidade muito grande entre os governadores e os moradores de Porto Velho.

Em certa ocasião, conta Ciro, um dos governadores deu 24 horas para que uma garota de programa, chamada Nara, abandonasse a cidade. O castigo foi provocado por um telefonema que a prostituta fez para a casa do governador, para falar com o secretário do governante, e também seu sobrinho, com o qual tinha um caso. Deu azar e quem atendeu a chamada foi a mulher do governador, que sabia quem era a Nara e comunicou o caso ao marido.

Nara, segundo Ciro Pinheiro era muito bonita, andava pela cidade de Karman Ghia vermelho. Ela era proprietária de uma boate no início da Avenida Nações Unidas. Teve que abandonar tudo e ir embora da cidade.

Porto Velho tinha vários prostíbulos. “Quando chegavam os garimpeiros, cheios de dinheiro, as casas eram fechadas só para eles. Grande parte das mulheres vinham de Cuiabá. Tudo era muito tranquilo. Raramente havia uma briga e a gente só andava a pé”.

Concurso “Miss Objetiva”

Fazia uma semana que Ciro havia chegado em Porto Velho e foi convidado para participar como jurado do concurso de beleza “Miss Objetiva”, promovido pelo jornalista Vinícius Danin. O promotor do evento alertou Ciro para a necessidade de vestir um terno. Também faziam parte do corpo de jurados o advogado Abílio Nascimento, o jornalista Euro Tourinho e outras figuras de destaque na sociedade. Danin chegou na festa todo empertigado, magrinho, de gravata borboleta. Os outros jurados também estavam vestidos de acordo com a ocasião, com exceção do então governador Assunção Cardoso, também jurado, que vestia uma camisa arregaçada até o ombro, para realçar os músculos malhados dos braços.

Além das festas nos clubes, também eram realizadas recepções, para comemorar aniversários, casamentos e batizados entre outras festas. “Tem pessoas da sociedade de Porto Velho que eu noticiei na coluna desde o nascimento até a chegada dos primeiros netos”, conta Ciro.

Raízes em Rondônia

Jovem e solteiro, Ciro conta que era namorador e chegou a passar por embaraços, como encontrar as três namoradas na praça e ter que sair de fininho. Casou com a namorada da juventude, Penha Pinheiro, no Ceará. Ele, que se mudou para Porto Velho apenas para conhecer a cidade, só voltou à Fortaleza em férias e considera remota a possibilidade de residir novamente na terra natal. “Perdi o contato com os amigos. Mesmo os parentes mais jovens, como os sobrinhos, eu já não conheço”. A mãe do jornalista até a morte, aos 97 anos, pedia ao filho que retornasse para o Ceará.

Ciro e Penha têm dois filhos, porto-velhenses. Nádia é acadêmica de Direito na Universidade Federal de Rondônia (Unir). Túlio, 26 anos, trabalhou como publicitário em Fortaleza, cumprindo o roteiro inverso do pai, e hoje estuda em Barcelona, na Espanha.

Como a grande maioria dos migrantes que hoje formam esta colcha de retalhos culturais que é a população de Porto Velho, Ciro criou raízes, deixou para trás a família e os amigos e hoje ajuda a consolidar uma nova sociedade, que aos poucos vai se moldando, com a contribuição de migrantes de todo o Brasil.

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Comentários

  • Abdoral: esse relato mostrando um pouco de Ciro Pinheiro é uma grande contribuição a quem se interessa por fragmentos da história de Porto Velho e de Rondônia. Muito louvável a sua iniciativa e a maneira tão clara, objetiva, como expõe as facetas do emérito jornalista cearense e rondoniense de coração, com certeza.

  • Parabéns pela iniciativa. Este é o introspectivo, sindicalista e profissional sério Ciro Pinheiro, com quem já tive a honra e o prazer de trabalhar. Um forte abraço do Bidu para você e todos os que ajudaram e continuam ajudando a tornar o amazoniadagente uma realidade, meio que vai fazer a diferença no contexto da informação regional e globalizada!

  • CIRO PINHEIRO disse:

    Inacreditável! – Somente hoje, 19 de março de 2011, li esta matéria, publicada há quase um ano. E tem mais: quando ela foi publicada, já fazia um tempão da entrevista à amiga, competente jornalista, colega de muito tempo, Ana Aranda. Casualmente encotrei a Ana no Mercado Cultural e ela perguntou se eu havia lido. Até pensava que não havia sido publicada. Fidelidade total ao que eu falei, sem ter que mudar nenhuma vírgula. Quero agradeçer à Ana (já trabalhamos juntos quando da criação do Estado) e dizer que gostei muito do amazoniadagente e que será um dos meus sites preferidos, todas as noites, quando leio, também, os jornais do Ceará. Um abração, também, para o Monte e o Bidu, pelas palavras bonitas. Ciro.

  • regina york disse:

    as a journalist that seems to me, knows lots of people, do you know a lady called ANA STELLA DE AQUINO COUCEIRO?

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