Ana Aranda
Quem hoje tem menos de 40,50 anos não pode imaginar o que representavam os prostíbulos até lá pelas décadas de 1970, 1980 no Brasil. A virgindade era valorizada e as meninas “de família” só podiam ter relações sexuais depois do casamento. Sem outra alternativa para “atender seus instintos naturais”, os solteiros se orgulhavam das histórias vividas nos bordéis, onde as mulheres eram solícitas, permitivas e não cobravam uma performance sexual. Os casados, mais discretamente, também gostavam de contar suas peripécias.
Nas pequenas cidades, as casas de mulheres se localizavam em ruas periféricas. Em Porto Velho, a “zona” ficava nas proximidades d o Mercado do KM1. Nos tempos áureos, as prostitutas ajudavam a movimentar a economia da capital do então Território Federal de Rondônia. Andavam bem vestidas, faziam compras no mercado, utilizavam serviços de costureiras e pagavam bem suas despesas. Como naquela época água encanada era para poucos , os garotos pobres ajudavam a pagar as despesas da família carregando baldes na cabeça e fazendo pequenos serviços nos bordéis.
Em Porto Velho, antigos prostíbulos persistem às mudanças dos tempos e continuam oferecendo seus serviços aos solitários. É o caso do bar da Maria Eunice, localizado na rua Dom Pedro II, sub-esquina com Tenreiro Aranha. Cantada em verso e prosa, a casa já não é mais a mesma dos tempos do ex-Território Federal de Rondônia, quando registrava até mesmo a presença de governadores, mas está sempre de portas abertas e quem passa pela rua e não conhece o endereço dificilmente vai reconhecer, em fachada tão discreta, uma
casa de meretrício.
Por volta da década de 1960, algumas pessoas que viviam nas proximidades do ‘Maria Eunice’, localizado na rua Dom Pedro II, sub-esquina com Tenreiro Aranha , resolveram que o prostíbulo não era bom para o convívio da vizinhança. Foi elaborado um abaixo-assinado que passou de casa em casa até chegar na moradia do casal Norman Johnson, mais conhecido por Mestre Johnson, e a esposa, Elvira Johnson, localizada na esquina da Dom Pedro II com Tenreiro Aranha, bem na frente do prostíbulo .
Mestre Johnson, funcionário da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, levava a sério os princípios rígidos da religião presbiteriana que trouxera da ilha caribenha onde nasceu. E foi justamnte ele quem deu um basta ao movimento de expulsão das prostitutas, arquitetado no silêncio das pacatas ruas de terra e casas modestas “Por que eu assinaria? Estas mulheres não fazem mal a ninguém”, alegou ele, calando os agitadores e encerrando o caso.
O bar da Maria Eunice é um estabelecimento discreto, escondido por muros altos, onde não se ouve falar de confusão. Os clientes chegam e saem sem tumultos. Nada parecido, com o que ocorria antigamente. Diz a lenda que a casa já recebeu até governador. As testemunhas lembram do caso. O dito cujo estava de aniversário e chegou de madrugada. Para as devidas reverênciasa à figura tão ilustre, a música parou e a dona da casa pediu uma salva de palmas “para sua excelência, o governador do território”. E assim foi feito, antes da proeminente autoridade cair na folia sem cerimônias, juntamente com os demais clientes.
Muitas das prostitutas do tempo em que estas profissionais eram mais requisitadas juntaram um patrimônio razoável e criaram filhos que estudaram e se integraram perfeitamente ao grupo de “pessoas de bem” da sociedade. Dos prostíbulos ficaram muitas histórias e lembranças. Hoje os costumes são outros. Os relacionamentos entre mulheres e homens já não são mais os mesmos, mas as prostitutas continuam por aí, ainda enfrentando a discriminação e o preconceito.











