Corumbiara: Comitê de Vítimas de Massacre mobiliza políticos para que apóiem indenização

Mara Paraguassu 

Agricultor e um dos sobreviventes do Massacre de Corumbiara, ocorrido há 17 anos e que resultou na morte de nove trabalhadores sem terra e dois policiais militares, Felipe Szidersq, 66 anos, integra o Comitê das Vítimas de Corumbiara, que busca indenização por danos materiais e morais na Justiça de Rondônia.

Desanimado com o processo que busca indenização às vítimas, patrocinado pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Rondônia (Fetagro) e Comissão Pastoral da Terra (CPT), o agricultor diz que “há um ano acendeu a luzinha no final do túnel quando o governador Confúcio Moura, no Grito da Terra, disse que ia pagar”.

Entretanto, isso não aconteceu. É que a ação, protocolada em janeiro de 2010, está em tramitação. Ela foi contestada pelo Estado, que requereu a prescrição do processo, mas falta o juiz avaliar se há prescrição a declarar.

O agricultor diz que a fazenda Santa Elina, palco do conflito, foi ocupada por “laranjas de empresários e por gente que tem até 300 bois lá dentro; deixaram o povo do massacre de fora”. Na semana passada ele falou ao Amazônia da Gente:

AG: O senhor integra o Comitê das Vítimas de Corumbiara. Quando o Comitê foi instituído e qual é o trabalho que está sendo feito pelas  vítimas do conflito, passados 17 anos?

Felipe Szidersq:  Ele existe há pouco tempo, uns 90 dias pra cá. O vereador Nezinho, presidente da Câmara de Vereadores, me pediu para ajudar a mobilizar o Comitê. Estamos falando com os políticos para ver se o processo anda. Já falamos com o deputado Padre Ton, o deputado Anselmo e o deputado estadual Claudio Carvalho. Ele ficou de agendar uma reunião pra nós com o secretário da Justiça. Há poucos dias entreguei documentos para o Valdir Raupp, que foi governador naquela época e não impediu o massacre. Eu disse a ele ‘veja se faz alguma coisa agora’.

AG: Mas o processo de indenização está na Justiça. Como os políticos podem ajudar?

FS: Eles podem defender a indenização. Há um ano acendeu uma luzinha no final do túnel. Foi quando o governador Confúcio Moura, no Grito da Terra, disse que ia pagar. Mas disse que sozinho não aguentava, precisava da parceria do governo federal para pagar.  Aí aquietou de novo.

AG: O senhor acredita que a indenização vai sair?

FS: Tanto tempo, eu não acredito que seja mais no nosso governo. O Ivo Cassol falou que não pagava, quando se iniciou o processo com o advogado. Agora parece que está começando a acender a chama novamente. A Fetagro (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Rondônia) assumiu o processo há dois ou três anos. Antes era o povo da Liga mexendo; havia só barulho e mais nada.

AG: O senhor foi uma das pessoas que entraram na Santa Elina, querendo um pedaço de terra?

FS: Sim.  Sou uma vítima também. Era recém-casado, não levei a esposa. Não tenho estudo. Trabalhava com um irmão como meeiro, e o Incra não dava terra. Resolvi fazer essa aventura.

AG: O senhor estava com que idade e como foi aquele dia de agosto, quando os policiais chegaram?

FS: Com 45 anos. Durante o dia inteiro eu fiquei algemado, com os olhos vendados, abraçado a uma árvore, e os policiais me batiam. Minha pele é branca, mas ficou toda morena de tanto apanhar. O próprio comandante disse que ia me matar. Eu disse que ele ia matar um inocente. Então ele abaixou a arma.

AG: E  o senhor conseguiu terra em Corumbiara?

FS: O Incra arrumou uma terra em Theobroma para quem quis ir. Eu fui.  Mas a terra era fraca lá, não produzia milho, não produzia arroz. Então, vendi meus 20 alqueires e comprei um lote em Corumbiara. Tem gente que não tem terra até hoje.

AG: E na fazenda Santa Elina? Foram assentadas pessoas daquela época?

FS: Santa Elina não foi ocupada por sem terra. Tem laranjas de empresários, com até cinco lotes. Deixaram o povo do massacre de fora. Para mim, foi um dos piores casos conduzidos pelo Incra. Santa Elina está ocupada por gente que não precisa de terra, que tem até 300 bois lá dentro.

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